"O homem que matou o homem mau era mau também" Jorge Ben
No fatídico 11 de setembro de 2001, eu cursava o primeiro ano do ensino médio numa escola pública em Jaguaretama, uma pequena cidade do interior do Ceará. Lembro-me que, naquele dia, eu e meus colegas fomos liberados mais cedo da aula quando, no caminho, encontramos dois amigos numa casa vendo na TV o ataque às Torres Gêmeas.
Assisti aquilo ao vivo como se fosse uma ficção. Era tudo tão absurdo que meu sentimento era de está vendo só mais um filme da indústria cinematográfica estadunidense. Claro, o bem e mal pareciam muito bem definidos ali e era óbvio que a caça aos assassinos começaria de forma heróica, intensa e empolgante.
Hoje, quase dez anos depois, milhares de pessoas estão nas ruas comemorando o que, para eles, é o fim da caçada. Comemoram a morte de Osama Bin Laden e sua vitória após anos e anos de varredura no Oriente Médio onde mortes inocentes aconteceram, igualmente às muitas das pobres almas que estavam dentro das duas torres.
Nesses dez anos fui descobrindo que as coisas não são tão simples como pareciam. Que o maniqueísmo era apenas uma esparrela ideológica onde, supostos, algozes e vítimas, são verdadeiros produtos de um mesmo processo, cúmplices da reprodução de uma sociedade calcada em visões fundamentalistas.
De um lado, o fundamentalismo religioso de um povo oprimido pelas grandes nações do Ocidente, alimentando o ódio e a intolerância por seus aspectos moralistas e mitológicos, longe de aprofundarem estratégias de luta para a superação real da opressão em que vivem seus países, em que vivem seus povos com relação aos seus governantes, ditando em nome de Deus e em quem possuem em seus valores posicionamentos que vão de encontro com a emancipação do gênero humano. É esse o mesmo fundamentalismo que existe em tantas outras religiões que, no fundo, só corroboram às desigualdades econômicas, sociais e culturais.
Do outro lado, o império capitalista, oprimindo direta e indiretamente com suas multinacionais, seus blocos econômicos, seu poderio militar e sua prepotência da ideologia mercadológica que faz com que tudo se volte para o bem-estar, pasmem, financeiro.
Esse é o fundamentalismo do mercado. É a vida e a morte, a alegria e a tragédia, o prazer e a dor sempre em segundo plano, pois primeiro é sempre preciso ver se os fatos causaram queda ou alta nas Bolsas de Valores, valorização ou não da moeda, aumento ou baixa das taxas de lucro.
Para o fundamentalismo de mercado tudo é justificável para manter o império econômico. Pode-se inventar guerras em busca de armas de destruição em massa, calarem-se em golpes de Estados contra presidentes na América Latina ou propagarem a mercantilização de direitos humanos como saúde, educação, segurança e lazer. A dor da morte, o prazer de consumir, a alegria da religião, a tragédia dos desastres ambientais, tudo está no deus-mercado.
O fundamentalismo religioso luta de forma cruel contra aquilo que também o é: opressor desde a raiz. Retroalimenta-se da morte, do sangue e da opressão dos seus e propaga valores que alicerçam o desrespeito ao diferente e a desigualdade entre os seres humanos, por questões de escolhas e orientações que só dizem respeito aos mesmos.
Vemos assim não uma busca por libertação de um povo, mas uma guerra hostil e sem nenhuma base numa lógica aceitável, reproduzindo atitudes contra a emancipação das mulheres, contra as pessoas que tem como orientação sexual a homossexualidade, contra a evolução do conhecimento humano e a favor de suas verdades incontestáveis, enquanto o antagonismo reina em escala global, propagando suas contradições gritantes e aumentando os abismos sociais.
Quem ganha com isso? Quem quer lucrar com tudo. Quem transforma tudo em oportunidade de opressão e exploração. Quem a cada dia percebe que os territórios, as bandeiras e as culturas só tem utililidade real quando usados como desculpas para manterem os lucros, mesmo que, por vezes, tenham de alimetarem-se da indústria da guerra.
Em 2001 me perguntava como aquilo que aconteceu tinha haver comigo. Só com o passar dos anos fui analisando que as raízes daquilo tudo, dos dois fundamentalismos, onde o do mercado fundamenta o religioso, eles, os dois, estavam aqui, no meu cotidiano.
Quando vejo os padres em suas emissoras de TV estimulando a intolerância aos homossexuais, o preconceito contra as religiões de matrizes não-cristãs, à condenação de quem não acredita em seu deus. Quando vejo pastores pregando à submissão da mulher, à prosperidade por via da acumulação financeira e a busca incessantes por lucro. Quando vejo os líderes religiosos lutando contra um Estado Laico, querendo que seus valores sejam leis ou assumindo a luta pela conservação dessa sociedade, vejo bem onde os fundamentalismos aparecem no meu dia-dia.
É nas minhas relações mais simples que vejo a saúde e a educação pública sendo sucateada e transformada em mercadoria. É onde vejo pessoas se mobilizando com um intuito de ter direito a comprar mais e mais. É onde percebo a propaganda que quase promete 12 virgens no céu se eu adquirir o produto anunciado. É aí que está o fundamentalismo.
Fundamentalismos materializados no aumento e banalização da violência. Na impunidade ou na busca por penas cada vez mais severas, na corrupção, nos linchamentos públicos, na desumanização de nossas relações, na quantificação de nossos sentimentos. Somos todos nós os frutos e as sementes dessa triste realidade.
Nos acostumamos a condenarmos as pessoas que amamos por não aceitarmos suas escolhas espirituais, votamos em candidatos por causa de valores religiosos, justificamos catástrofes como provações divinas, escondemos defeitos e limitações em orações, mas não entendemos como um mulçumano pode ser tão cruel com as mulheres.
Desejamos, sonhamos, ficamos felizes ao comprarmos produtos de marcas pelo mero sígno identidário do mesmo. Protagonizamos migrações aos Shoppings, como se fosse à Meca, adoramos Lojas, bolsas e tênis ao ponto de pessoas matarem e morrerem por isso, mas não compreendemos o absurdo que é o massacre de inocentes por questões religiosas.
E hoje, todos comemoram à morte do assassino Osama Bin Laden. Agora, isso é muito mais importante que qualquer fundamentalismo, é a justiça sendo feita. Mais importante do que os prejuízos dessa lógica, mais importante do que todas as mortes inocentes, de todos os lados , nessa guerra sem sentido. Mais importante do que as pessoas que cumprem pena de vida, pela fome, pela desigualdade, pelo preconceito, pela discriminação.
O medo, o clamor e a vingança sãos os passos mais curtos para a barbárie. Morre Osama, permanecem vivos os fundamentalismos do mercado e da religião. Teremos no banquete a cabeça de mais um rico assassino. Ficaremos felizes, daremos audiência às emissoras de televisão, acharemos que isso vai mostrar que "o terrorismo não compensa", mas seu combate bélico e truculento sim. E assim vamos todos assistindo mais derramamentos de sangue e naturalizando a violência, a opressão e a intolerância em nós.
Osama morreu, milhares de fundamentalistas islâmicos alimentam seu ódio. Osama morreu, os Estados Unidos usam o fato como o troféu que alimenta a legitimidade do seu império. Osama morreu, o mercado financeiro comemora.
Osama morreu e tudo continuou igual. No olho por olho, todos continuam cegos. E a guerra continua e a luta paralisa. Até quando?
3 comentários:
2 ou 3 depois do ataque às Torres Gêmeas, meu colégio (católico) organizou uma oração, todos os alunos de branco, fui de azul escuro. Eu tinha 17 na época, não sabia nada sobre Osama Bin Laden, acho que poucas pessoas o conheciam. Resolvi estudar sobre o Oriente Médio, comecei a ler sobre sionismo, questão da Palestina, do Líbano, holocausto - e seus mitos -, judaísmo... Hoje sou a favor do Estado Palestino (laico), e odeio Israel (o povo perseguido?) por uma série de motivos.
Resumão da velha e falida 'sociedade burguesa consolidada e madura'(sistema que se sustenta de guerras, mentiras e adora viver como desiguais).'
Muito bom seu texto
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