domingo, 1 de maio de 2011

Primeiro de Maio (Iara Gomes de Moura)


"Cigarro entre os dedos. Sentado sob uma banqueta de madeira titubeante. Aos seus pés, uma poça de lama. A chuva caíra há pouco. O olhar preso ao chão transmite uma sombra de desespero que quebra a monotonia da hora. Há quatro anos desempregado, testemunha de um tempo cujo sentido ficou perdido no fundo de um copo sujo.

Ela quase consegue disfarçar o cansaço com seu sorriso ligeiro e tímido. Sentada numa cabine, fita o relógio repetidas vezes, a cada minuto. O tempo não passa à medida que a madrugada segue e seus olhos insistem em fechar. Em ritmo cadenciado, as máquinas combinam sons, repetitivos, alucinantes. O fliperama é sua única companhia, afora os passantes e o inspetor que vez por outra vem olhar se ela está acordada. Nesta vida tão ligeira, ela espera pelo sol que virá pôr fim à jornada noturna.

Sapatos polidos, camisa de mangas longas. Sobe o elevador animado. É seu primeiro dia de trabalho e ele mal consegue disfarçar a satisfação. Quarenta anos se passam. Os sapatos já estão gastos, a camisa amarrotada e ele continua ali, cercado por pessoas apáticas ainda tão estranhas. Atrás da mesa, exerce a função que o engolfou desde o primeiro dia. 
Gestos mecânicos acompanham os ponteiros do velho relógio que marca as oito horas de expediente da repartição. O trabalho gasta seu tempo, leva sua vida.

Recostada à janela, ela espia os moleques que jogam no asfalto. Vez por outra cumprimenta algum conhecido, serve um café e volta para lá. Quando a noite chega, mergulha embaixo do cobertor para proteger-se das lembranças que povoam seus sonhos. Memórias de um passado recente, quando era faxineira da escola do bairro... As pernas fracas já não permitem. Está convencida da sua inutilidade. Por isto espera seu dia, sem ânsia, sem dor... apenas espera

Reféns de uma lógica automática, transpõem os dias ao sabor dos ventos. Hora são necessários; hora, supérfluos. Mas sempre descartáveis! No trabalho, arruinam o espírito, embrutecem o corpo. Sem trabalho, já não há vida alguma. Sob o imperativo do capital não há vazão possível.

Por isto irrompem, de tempos em tempos, brotando da terra, das vilas, cortiços, das fábricas, favelas. Arrancam o futuro do tempo presente, destroçam a hipocrisia da moral vigente. Ecoam seus hinos, trançam seus braços. E como num terno abraço, anunciam o porvir.

É primeiro de maio. Dia do trabalhador!"


Por Iara Gomes de Moura, Jornalista e amiga

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