A falta de tempo tem me deixado de fora das “tendências” das rede sociais. Os temas que estão na ordem do dia, ou do minuto, dada a mobilidade e frigidez dos debates, estão passando por meus dedos sem as devidas ponderações que sempre gosto de fazê-las, afinal, mesmo com essa "liquidez" é sempre bom debater.
Eis que hoje dei uma rápida zaeapada pelo twitter e me deparei com comentários fortes e sensibilizados contra um mal absurdo, um fenômeno degradante e triste: a pedofilia.
Aparentemente, o debate ganhou força quando as pessoas descobriram um blog que exaltava e socializava cenas de violência sexual contra crianças. Essas pessoas, sensibilizadas e revoltadas, passaram a pedir para que todos e todas denunciassem tal endereço eletrônico, ao passo que também passaram a veicular o blog a fim de dar um "choque de realidade" nos outros, buscando propagar essa tão grave problemática.
Eu não vi as imagens, não vou vê-las. Entendo o porquê daqueles que tiveram curiosidade e que nela cultivaram mais força para lutar contra isso tudo. No entanto, preocupa-me que essa espécie de curiosidade mórbida seja uma estratégia válida e, talvez, considerada das mais eficazes para desvelar tal podre mazela.
Preocupa-me um nível de sociabilidade onde precisamos propagar as cenas de violência que, em certa medida, é violentar novamente, para atingirmos os corações e mentes das pessoas. É deveras preocupante que a mobilização esteja se dando, e não somente nesse caso, pelas vias da emoção despolitizada, por estratégias mecânicas, diretas, onde se prefere os discursos rápidos, fáceis e impactantes.
Longe de mim não querer punição, dureza e mais força do Estado no combate à pedofilia. Quero apenas trazer reflexões mais profundas sobre esse e outros fenômenos que assolam essa contemporaneidade tão marcada por tragédias.
Não vi as imagens. Não preciso ver uma barbaridade dessas para me sensibilizar e me indignar. Quero cultivar minhas convicções, não buscar subterfúgios para abrir esparelas para colocar num só saco os dramas, as tragédias e as opressões, como no caso de pastores que questionam à homossexualidade, dizendo que a pedofilia é também uma orientação sexual, mas que não é aceita. Não, não vou entrar nesse jogo.
Não sei como erradicar esse mal que é a violência sexual, mas sei que isso não vai passar pelo aprofundamento desses valores e dessa estrutura social em que vivemos. Sei também que é o medo, a comoção despolitizada e o discurso raso que pode ser ferramenta para caminho inverso, fertilizante para o que há de mais vil.
Hoje, diversos meios de comunicação dão conta de que a deputada do PDT, Myrian Rios, eleita pelo voto e pela fé de muitos cristãos, fez um pronunciamento ligando homossexualidade à pedofilia e defendendo o "seu direito" de não querer contratar um homossexual.
Segundo o site de notícias Terra, a deputada religiosa disse: "Digamos que eu tenha duas meninas em casa e contrate uma babá que mostra que sua orientação sexual é ser lésbica. Se a minha orientação sexual for contrária e eu quiser demiti-la, eu não posso. O direito que a babá tem de querer ser lésbica, é o mesmo que eu tenho de não querer ela na minha casa. Vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus até se ela não vai cometer pedofilia contra elas. E eu não vou poder fazer nada" e depois completou "Se eu contrato um motorista homossexual, e ele tentar, de uma maneira ou outra, bolinar meu filho, eu não posso demiti-lo. Eu quero a lei para demitir, sim, para mostrar que minha orientação sexual é outra".
É justamente esse tipo de colocação rasteira, de má fé e reacionária que é alimentada em tempos de tanta violência banalizada. É essa mistura, cuidadosamente pensada, que faz com quer mergulhemos, cada vez mais, nas vias da intolerância e do falso enfrentamento de nossos problemas.
Rios é só mais uma dentre tantas outras pessoas que fazem esse tipo de conotação fascista. Porém, existe um exército do atraso que supera setores e crenças religiosas e perpassa pelos mais diversos espaços e instituições, que se utilizam de momentos, fenômenos e fatos tão cruéis como a pedofilia e outros crimes hediondos para propagarem pensamentos que corroborem com a pena de morte, com a homofobia, com a perda de direito à defesa, a redução da maioridade penal, dentre outros dos mais dispares elementos.
No calor das disputas sociais é preciso senso crítico e calma em nossas ponderações. Não quero deixar a emoção levar-me ao discurso fácil. Não quero que minha revolta se transforme em alimento da barbárie. Não quero pregar a crueldade para combatê-la, nem fazer dessa aberração combustível para os setores fascistas usarem meus sentimentos em prol de outros assuntos que nada têm haver com esse absurdo que é a pedofilia.
É necessário lutar contra impunidade sem cultivar o revanchismo, irracionalidade e a barbárie que nos deixa no mesmo patamar de desumanização dos monstros e algozes que violentam crianças. Mesmo quando os fatos são tão absurdos que nos tiram a racionalidade, é preciso ter a clareza que quando uma criança é violentada isso ocorreu também por uma falha nossa, da sociedade, da família e do Estado.
Tão importante quanto buscar reações para o combate à pedofilia é perceber que as ações rumo à proteção e defesa dos direitos das crianças e adolescentes precisam serem pautas permanentes dos mais diversos setores.
Precisamos ter a clareza que as leis precisam serem cumpridas, aperfeiçoadas, ampliadas, mas não somente às leis penais, e sim todas, sobretudo as que garantem direitos e a busca de mecanismos para o enfrentamento dos mais diversos problemas.
Só conseguremos um enfrentamento amplo e sincero quando nos dermos conta que é a nossa estrutura social a maior manifestação da violência. É ela que não nos deixa ter ferramentas mais eficazes na proteção de nossas crianças, na garantia de saúde, lazer, educação, segurança, cultura como direitos públicos, gratuitos, de qualidade e universais.
A violência é a raiz de uma sociedade que não se indigna por deixar seus jovens matarem e morrerem, seja para matarem a fome, seja para alimentarem os desejos do mercado com seus valores consumistas e individualistas.
Uma sociedade que erotiza a infância nos programas de tevê, nas músicas, nos brinquedos, que banaliza a violência e os preconceitos nas brincadeiras e que educa a partir do respeito pelo medo, colocando sempre a superioridade dos adultos e propagando valores que corroboram com as desigualdades étnicas, de gênero, de geração e de classe.
A violência é essa sociedade que tem no medo, na revolta e no ódio as sementes para resoluções dos seus problemas, sempre jogados para debaixo do tapete por via da coerção, da punição, da opressão. Uma sociedade incapaz de vislumbrar o questionamento mais profundo de sua reprodução social, que até se revolta e se sensibiliza quando leva um “tapa na cara” ao assistir cenas de pedofilia, mas que se acostumou à colocar culpa da violência “nos direitos humanos”, no “Estatuto da Criança e do Adolescente”, no Estado que “protege vagabundo”, ao passo que também naturaliza à miséria no sinal de trânsito,a cisão geográfica das cidades que se dividem pelo fator financeiro, as diversas violências nas piadas, nas conversas, nas atitudes.
Precisamos questionar, fazermos outras reflexões, buscarmos superar essa sociedade adultocêntrica, machista, heteronormativa, racista, fascista, homofóbica, patriarcal, capitalista em busca de outra forma de convivência.
Quando vejo reflexões rasas, rápidas temo. Quando vejo pessoas pedirem mais cadeia, tortura, morte, temo. Tenho medo de comoções populares generalistas, emocionadas e despolitizadas, pois são sempre um poço para os oportunistas salvadores da pátria.
Não acho que não seja explicável e legítimo as pessoas se indignarem ao ponto de quererem vingança ou a morte de criminosos como os pedófilos. Porém, coletivamente, precisamos agir de maneira racional, para que se evite distorções e as emendas acabem por estragarem, ainda mais, esse trágico e assimétrico soneto da barbárie. Questionemos o todo, não só a parte.
Endurecer contra a pedofilia é preciso, urgente, mas é também tão urgente não pegarmos carona num medo patológico e maquiavélico que visa uma onda de conservadorismo que nada enfrenta senão nossa esperança em busca de um mundo diferente. Pois eu quero muito mais que punição, quero outro mundo, quero me livrar do medo e do ódio, quero uma sociedade sem opressão.
Lutemos sim contra a pedofilia, para que todas as leis sejam cumpridas, ampliadas, aperfeiçoadas! Lutemos para que as pessoas sejam capazes de se sensibilizar com todas as mazelas! Lutemos contra o discurso raso e fácil. Lutemos pela defesa e proteção radical dos Direitos das crianças e dos adolescentes! Lutemos contra todas as desigualdades, por uma outra sociabilidade!
Fora disso, tenha cuidado, pois você pode está apenas engrossando o coro da intolerância e da barbárie.
Fora disso, tenha cuidado, pois você pode está apenas engrossando o coro da intolerância e da barbárie.
Para quem chegou até aqui, os deixo com um poema que escrevi chamado "Apologia" - http://nofiapo.blogspot.com/2011/06/apologia.html
Wescley Pinheiro
Um comentário:
Eu indico para aqueles que ainda não assitiram, o filme: "A Preciosa".
bjos!
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