Respeitável público!
Dirijo-me aos atores desse show, aqueles que passeiam em baixo do sol de dois em dois anos, que animam-se em gritos e guerras, que torcem, que engolem a tosse e mordem a língua em busca de está lá no banquete real. Dirijo-me aqueles que findam um ciclo, para deletarem-se e começarem de novo.
Está acabando? Não! Nem está apenas começando, tudo é processo. Alianças tantas, tão frígidas, quantos reais apareceram e desapareceram com o mesmo teor de mágica. Em prateleiras tão pobres as escolhas escassas sobrepuseram-se com muito espetáculo, poucos amores e tantas paixões. Quantas sensações!
“Debateremos projetos distintos” – falaram os idênticos entre si e desiguais entre tantos. Espelhos que refletem o que muitos querem esconder, pinturas fantasiosas, fotografias mil, poucos retratos e menos ainda a merecida retratação: eis a eleição! Essa caixa de Pandora tão emblemática revelando cisões, dilemas e mitos. E hoje? E amanhã? O que farão aqueles que apostaram errado? É hora de esquecer tudo “em nome de uma cidade melhor”? Há lições a serem aprendidas em um pleito ou esse é um campo definitivo de claques e claquetes? As acusações de hoje se anulam com os abraços de ontem? Há possibilidade dessa peça não ser farsa?
Se a eleição passa e o povo fica, que fiquemos! Fiquemos vigilantes e atuantes ali onde a urna não chega. E que aqueles que se escorraçaram hoje sejam coerentes suficientes, a partir de agora pelo menos, para fazer diferente, se isso é permitido. Entre o barulho das buzinas, dos jingles e dos fogos ficam aqui ensurdecidas tantas interrogações: Que tal não esperar o leite derramar para começar o chororô? Que tal não alimentar monstros, acariciá-los e depois colocar o dedo em riste em uma busca autoritária e desesperada por ajuda para deixar de ser o cínico parceiro e transformar-se, no acender das luzes, no mais tenaz adversário?
Ah essas lições! As lições de casa que nunca são feitas e que aparecem em tantos papéis voando, espalhados pelas ruas, prometendo a colheita da felicidade, do amor e do carinho num terreno onde se plantou egoísmo e cinismo. Hoje não aplaudo o drama, nem a dramatização. Queria eu acreditar que agora pudesse ser diferente.
Queria e quero, almejo a surpresa, torço: ganhem-me com a prática real, sincera e ética, estou desarmado. Aprendam, façam as lições. Agora apagam-se as luzes, fecham-se as cortinas e se prepara um novo ato. Será esse espetáculo ainda calcado no aliancismo, no possibilismo e no mito da governabilidade? Penso que sim, sonho que não.
Respeitável público, no bonde dos iludidos, nas alas das vitórias inglórias e das derrotas tão rasas, quem consegue sustentar mais suas mentiras? As apostas nunca acabam! O blefe também.
Provem-me que eu estou errado, por favor.
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